A saga atrás de um bolo fofo pra chamar de nosso!!!!

Por Flávia Ribeiro

Eu cresci cercada por muitas mulheres que gostavam muito de cozinhar e que tinham o bolo como símbolo de carinho, alegria, proteção… Eu no início da adolescência aprendi a fazer bolo!!!!!! E eles deram certo quase que de cara! Poucos dos meus bolos ficaram solados na vida inteira! Até então! E eu sempre gostei de cozinha, de ouvir as histórias, de aprender vendo as minhas avós e tias fazerem bolo, fazerem comida em geral! Nem sempre aprendia a receita, mas aprendia sobre a vida! Sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre as cantoras do rádio, sobre engenhos de açúcar, sobre as atrocidades da escravização de humanos! Minhas avós tinham sempre muitas histórias! Com minhas tias o papo era outro! Era sobre as aventuras, a vida na roça, a convivência com os irmãos e por aí a gente ia construindo os nossos laços, as memórias dos cheiros e dos sabores!

A cada aniversário um monte de nós, meninos e meninas, se reunia envolta das mesas para confeccionar doces e salgados e depois uma pequena multidão comida tudo com muita alegria! Mesmo na família do meu pai, menos numerosa, a comida e os bolos estão até no nosso olfato! Minha avó Iracy gostava tanto de fazer comida que quando teve que ir embora pro céu deixou quitutes congelados que comemos por uns seis meses. Adolescente, minha irmã se deitava no sofá da casa dela e dizia: “uma vontade de um bolinho, vó!” Ela deixava a novelinha mexicana ou filme que estivesse vendo e saia quietinha! Retornava em meia hora com um bolo fumegante pra ela saborear! Eu e meu primo Leandro nos beneficiávamos dos pedidos e também nos deleitávamos com as delícias no banco do cantinho da sua inesquecível cozinha! Já os bolos de vovó Verônica eram iguarias cuidadosamente pensadas! Nada era feito num repente! Ela não deixava a gente se lambuzar, mas os pedaços que ela cortava e nos destinava eram especiais! Ainda dá pra sentir o cheiro e o gosto daquelas fatias fofas e saborosas.

Acho que se a família de mamãe tiver um símbolo culinário será um bolo! A alquimia ancestral e familiar quase sempre incluía trigo, leite, ovo, soja! Manteiga e por aí ia… Até o bolo de aipim que parece bom-bocado leva ovo! Eu imaginei que reproduziria todas as receitas, das minhas duas famílias, que as passaria aos meus filhos e aos meus netos! Tudo certo se eu não tivesse recebido junto com minhas crias uma senhora disciplinadora e as vezes assustadora, mas que no fim pode ser como uma babá muito competente e estimuladora! A senhora chegou sem ser convidada e se apresentou com nome e sobrenome: ALERGIA ALIMENTAR! De cara ela expulsou da minha cozinha e praticamente da minha vida todos os ingredientes clássicos usados em um trivial bolinho praticado há séculos pelas minhas tataravós, bisavós, avós, mãe e tias!

A princípio a senhora ALERGIA chegou anunciando que proibiria por tempo indeterminado o leite de vaca. Eu não pensava que existisse vida sem queijo! Leite eu nunca curti muito beber, mas queijo… Ah, como viver sem ele, sem requeijão? Hoje EU como queijo e requeijão, mas já vive sem ele quando amamentei Joaquim e Maria e sei perfeitamente que existe muita vida além do leite e seus derivados. Pros bolos era fácil! Fazia bolo de laranja, de abacaxi, de cenoura! Mamãe já não usava mais manteiga pra fazer bolo e muitas vezes ela substituía o leite por suco de fruta! Então minha alma boleira continuava tranquila! Mas eis que o segundo filho nasce e o mais velho não melhorava nunca. Com dois pequenos e muitos problemas, causados pela senhora indesejada que a gente não conhecia direito e que habitava nosso lar, procuramos novo médico e ele nos apresentou a personalidade dela!

Aí foi impossível fazer um autêntico bolo fofo por 9 anos! Aí aprendi o que era ouvir um pedido de bolo e não atender, aí aprendi a solar bolos e bolos! A fazer pedras disfarçadas de comida! Sem trigo, sem leite, sem ovo, sem milho, sem fermento a coisa ficou difícil, mas até que chegamos a um verdadeiro milagre! No meio disso tudo nasceu a caçula que conviveu com coisas chamadas de bolo, mas estavam longe de ser! Só que há pouco mais de dois anos fizemos o nosso primeiro bolo fofo, delicioso, sem trigo, sem leite, sem soja, sem ovo e sem fermento! Tanto espanto nos causou que os meninos quiseram que eu gravasse com eles a receita pro Pedroaco Diversões (Bolo vegano inclusivo), canal do YouTube que eles têm com comida inclusiva e outras diversões! Maria teve um bolo de aniversário de verdade aos 4 anos! Os meninos tiveram um bolo seguro e fofo com muito mais! Mas eles tiveram de bolo de isopor decorado a bolo de melancia nas nossas festinhas que celebraram a vida!! A gente ignorava os comentários e as observações das pessoas que esperavam que a gente fizesse um bolo pros convidados e os deixasse olhando! Eu jamais faria isso!

Depois deste milagre nós conquistamos muitos outros ingredientes! E fomos nos apurando no bolo fofo! Até minha mãe tem o prazer de trazer ou de os receber com um bolo fofinho! Agora até eles fazem bolo! Joaquim é capaz de desenvolver qualquer receita! Pedro segue o nosso caderninho inclusivo com atenção! E Maria, aos seis anos, maneja bem as receitinhas de bolo de caneca! E se a gente viajar e eles quiserem comer um bolinho? Fazem eles mesmos no micro-ondas, se não estiver contaminado por alérgenos! Então o que quero dizer a vocês é que tentem e que se precisarem de ajuda, olhem o canal deles e de outros alérgicos e mães que agora tem em bom número por aí! Uma hora você acha um bolo fofo pra chamar de seu! Eu já tenho vários pra deixar pros meus filhos que já se apropriaram de todos e desenvolvem novidades! Bolos pra ensinar a meus netos e a quem mais quiser aprender a fazer milagres na cozinha! Continuamos sem leite, trigo, soja, ovo e mais um monte de coisas, mas temos vários bolos pra chamar de nossos! E tudo isso eu aprendi com a senhora ALERGIA ALIMENTAR! Receitas, paciência e disciplina, entre outras “cositas”!

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