Cozinhar: um ato sobrevivência e de aprendizagem!

Joaquim com 4 anos. Ele tem 11 agora.

Cozinhar sempre foi um assunto sério na minha casa. De onde eu venho as pessoas aprendiam a cozinhar ainda criança. A maioria de nós, netos dos meus avós, soube cozinhar cedo! A gente simplesmente começava a fazer comida observando as avós! Na minha geração, na minha família materna, muitos meninos e meninas sabem fazer comida e boa!

Cozinha sempre foi o centro da casa de quase todos nós e fazer a comida nunca foi um ato de submissão. Comer e alimentar as pessoas é um ato de segurança, sobrevivência, de carinho, agrado, alegria e satisfação. E também uma fonte inesgotável de comemoração e aprendizado!

Na família do meu pai meu avô morreu antes que os netos chegassem, então não sei nada sobre os hábitos dele, mas sabemos que ele serviu ao Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial como ajudante de cozinha! Foi para a Itália em um navio, ajudando a alimentar a tropa.

Com a morte do meu avô, os tios e pai que encontramos quando chegamos a Terra eram pessoas lideradas por uma mulher que fazia da comida um ingrediente muito importante. Lá em casa crescemos vendo papai cozinhar, não era uma rotina de dia a dia, mas era uma rotina de celebrações e invenções. Ele teve talvez o papel de nos ensinar que a cozinha podia ser divertida, improvisada e até meio alternativa.

“Comidinhas prontas”

Mamãe foi uma daquelas jovens da década de 70 do século passado que nada sabia fazer na cozinha até que casou e resolveu se aprimorar. Nós, filhas, temos poucas memórias de alguma comida dela que não fosse absolutamente incrível!

Na família de papai nós temos ainda um tio-avô que marcou nossas aventuras infantis e adolescentes! Ele sabia manter as pessoas alimentadas com muita criatividade. Nosso tio Arizinho já era aposentado quando adolescentes, eu, minha irmã e meu primo Leandro, ficávamos sob seus cuidados na praia e ele se esmerava para nos alimentar! “Eles vêm do mar arrepiando! Tenho que ter umas comidinhas prontas!” Ele repetia essa frase aos meus pais e nós amávamos ficar com ele!

Atualmente, adulta, alérgica, com 3 filhos e um marido alérgico, vivendo há mais de 11 anos sabendo que tenho que conviver com a alergia alimentar, vejo que a comida é para nós uma grande estratégia de defesa! Ensinando a produzir alimentos nós ensinamos entre outras coisas, inclusão, resiliência, resignação e química, além de matemática.

Quando um bolo consegue ficar fofo e macio com bicarbonato de sódio, vinagre e purê de maçã, banana ou batata doce isso é química pura. Ensinamos matemática quando dobramos as receitas, quando lemos medidas em gramas, mililitros e frações. A culinária é uma grande escola e todos deveriam se beneficiar dela.

Quando pensamos em cardápios ensinamos e aprendemos sobre grupos de alimentos! Aqui ninguém tem dificuldade em entender as fontes de carboidrato, proteína, vitaminas e sais minerais! Até Maria, com seis anos, está familiarizada com estas palavras. Fazendo perguntas do tipo: “Mãe, o que é um, barra dois xícara de chá?” Eles entenderam que era metade de uma xícara que tomamos café, embora o nome indique que é pro chá!

Palavras e ações

Neste aprendizado todo mundo aprende vocabulário culinário também! Ninguém estranha se eu estiver fazendo alguma comida e pedir o fuê! Aqui em casa ele nunca foi usado para bater ovos, mas todos sabem que ele é um bom instrumento para mexer cremes e bolos!

Então essa minha conversa comprida é para sugerir a vocês que ensinem as crianças a comer e a cozinhar alguns dos próprios alimentos! No nosso plano de aprendizagem quero contar a vocês que seguimos ensinando e além de cuscuz de milho e de arroz, Maria já sabe fazer tapioca de frigideira! Sim de frigideira, aquelas que se faz com a massa que compramos na feira ou no supermercado!

Falamos assim porque somos de Campos dos Goytacazes, Norte Fluminense, onde também chamamos de tapioca seca o que em outras regiões do Brasil as pessoas chamam de bijú de tapioca, uns canudinhos que lembram papel enrolado! Adoramos, é crocante e salgadinho! Mas também comemos muita tapioca de frigideira e fazemos questão de criar este hábito nas crianças também como forma de valorizar a raiz paraibana que eles herdaram a da avó paterna! A vovó Mirtinha, aquela que não se interessa por cozinha, é a melhor tapioqueira das nossas vidas!

Joaquim está fazendo cursinho de culinária inclusiva, ganhou uma balancinha digital do pai e anda pesando e descobrindo muitos ingredientes novos! Pedro continua muito mais interessado em provar as novidades, mas tem feito as tapiocas de frigideira, até as vira como se fosse experiente, e vem me ajudado a fazer bolos! Frequentemente Maria ajuda Tiel a fazer o café da manhã! Então seguimos nos preparando pra vida!

Prepare você também uma receitinha e tire dela as melhores lições que conseguir! Um bom aprendizado!

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista,
produtora de conteúdo e mãe de alérgicos!
E-mail: ribeironunesflavia@gmail.com

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