Cardápio de qualidade como legado da Alergia Alimentar

Tainã com os pais Edson e Ilka

Por Flávia Ribeiro

Médicos, nutricionistas e pais concordam que restrição alimentar nenhuma pode ser considerada uma coisa legal, mas ela é necessária nos casos de alergia alimentar e em outras condições de vida que envolvem a ingestão de determinados alimentos. Mas um efeito positivo que muitos de nós (pais de alérgico) percebemos é a dieta variada e rica que a maioria dos diagnosticados ainda criança conquista para vida. Conversei com uma nutricionista, uma médica e uma família que concordam que sim, os alérgicos têm ótimos cardápios.

Como é aí na sua casa? Qual a sua experiência? Aqui na minha casa todos comem bem, mas todos continuam alérgicos, mesmo os meninos que já estão nos primeiros momentos da adolescência.
Na casa dos meus tios o exemplo bem sucedido é clássico. Algumas conquistas eles não têm dúvidas, vieram com a ajuda da alergia alimentar. E os benefícios não ficaram só no cardápio. Minha afilhada e prima Tainã Ribeiro Nunes, 21 anos, é estudante de fisioterapia. Ela sai, ou melhor, antes do início da pandemia saía com os amigos, fazia festas em casa como qualquer jovem e mesmo assim continua pensando no que comer e levando merenda pra universidade.
“Eu levo cenoura crua, ovo cozido e outras coisas sempre. Lá não acho nada muito saudável com um preço legal. Então prefiro levar e as pessoas às vezes estranham, mas eu estou acostumada. Sempre levei minha comida”, explica.

Hábitos

A assistente virtual Ilka Maria Pessanha Ribeiro, 59, minha tia, diz que muitos hábitos são resultantes do período em que a filha era alérgica a proteína do leite de vaca. “Além do cardápio mais diversificado e do cuidado de pensar no que come a alergia ensinou que existem limites na vida, pra tudo. A vida impõe limites, não tem jeito e com a alergia ela entendeu desde cedo que eles existem”, revela.

Hoje é a jovem quem cuida de manter uma dieta familiar saudável porque os pais não curtem muito a cozinha. “A gente decidiu que ia comer direito para que ela também comesse e que comeríamos o que estivesse no prato. Então ela sempre comeu tudo o que podia. A gente não gosta de cozinhar, mas o compromisso com a maternidade nos fez desenvolver essa habilidade”, revela a mãe.

O marido dela e pai da Tainã é o meu tio caçula Edinho, o Edson Vieira Nunes, 62 anos. Ele foi filho temporão dos meus avós paternos e sempre comeu o que mais gostava, e isso incluía pouquíssimos legumes e verduras, mas quando a filha nasceu, ele resolveu cumprir o acordo com a esposa para que a menina, logo diagnosticada como alérgica se alimentasse bem.

Hoje ele se surpreende com os pratos que come preparados pela filha! “Meu pai às vezes me diz: mas eu não quero muito isso. Eu respondo: Come pai! É saudável!!! E ele come tudo!”, diz bem-humorada a jovem que até hoje não come nas festas. “Eu não sei comer em festas. Eu me alimento antes de ir e depois, na volta. Eu nunca pensei que isso vinha da minha infância, mas só pode ser porque mamãe me dava o jantar antes de ir pros aniversários”, revela.

Foco

Minha tia sempre acreditou que crianças vão às festas dos amigos e primos para brincar. “Aqui a gente focava nisso. Comida ela tinha em casa. Mas a gente levava aquela merendeira com doces e bolos pra hora dos parabéns. A comida nunca foi o foco da gente nas festas. Isso ficou pra vida”, diz.

A gastropediatra Janaína Salgado revela que quantitativamente os alérgicos comem melhor que as outras crianças que não convivem com restrições. “Eu sempre gritei que eles comem melhor. Eu tenho a maior pena quando os pais mudam a dieta dos pacientes que recebem alta. Os lanches dos alérgicos são os mais lindos da escola. É sempre válido lembrar que cada fase da vida exige nutrientes e quantidades específicas de acordo com cada estágio do crescimento”, observa.

A nutricionista Adriana Costa, pesquisadora sobre alergia alimentar,  concorda com a médica. “Em geral os alérgicos comem de forma mais diversificada. Geralmente eles têm uma dieta muito melhor. O desafio é quando recebem alta, os pais manterem as dietas tão equilibradas”, diz. Ela acrescenta que a melhor forma de lidar com a alergia é evitando alimentos industrializados e isso já faz a dieta dos alérgicos ser melhor.

“O caminho mais fácil é pelas comidas naturais, então os alérgicos já saem na frente. Precisamos voltar a comer como comíamos antigamente para evitar alergias, intolerâncias e outras doenças”, finaliza a nutricionista que cursa especialização em nutrição clínica materno infantil na Universidade de São Paulo, mas tem na bagagem a experiência de ter um filho que foi alérgico alimentar.

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista,
produtora de conteúdo e mãe de alérgicos!
E-mail: ribeironunesflavia@gmail.com

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