Histórias de alergia e superação no sertão da Paraíba

Márcia, Dimas, Bianca e Bruna, na foto ao lado

Em Cajazeiras, no Sertão da Paraíba, 20 anos e sete irmãos separaram Mirtor, 79 anos e Dimas, 59. Apesar dela ser a primeira e ele o último na escadinha dos Andriola Pereira, além dos pais, dos irmãos e da amizade, têm algo a mais em comum: a alergia e a intolerância alimentar que os acompanha na vida adulta. Ela ajudou a cuidar dele desde o nascimento. Os dois nunca deixaram a cidade natal e convivem com restrições alimentares parecidas. Mirtor não teve filhos, mas como a mais velha dos filhos de D. Arlinda e seu Zuca, ajudou a cuidar dos mais novos, de sobrinhos e agora dos sobrinhos netos. Isso deu a ela a capacidade de observar características familiares.

“Quando mamãe morreu eu disse a eles que me respeitassem, porque sou agora a anciã da família”, diz com bom humor. “A filha da minha sobrinha vivia muito doentinha e eu alertei que podia ser alergia. Não é que deu certo? O médico até diminuiu os medicamentos dela depois que a alergia a trigo foi identificada”, explica a aposentada.

Mas apesar dos desconfortos intestinais, respiratórios e dermatológicos desde sempre, os irmãos cresceram sem diagnóstico. “Eu cheguei a parar de ir à missa. Voltava com tanta coceira que nem sabia o que fazer. Um dia tomei quase o vidro todo de antialérgico. Meu marido ficou assustado. Depois descobri que era porque eu passava perfume e não posso. Parei a natação também porque saía com uma coceira que não me aguentava. Era o cloro da piscina. Mas continuava inchada e com mal estar. Ainda tinha mais. Eu sempre prestei muita atenção a mim. Desconfiei do trigo e do leite. Falei com o médico e ele disse que podia ser mesmo. Comprovou com exames. Estou muito bem vivendo sem eles. Minha irmã mais nova lamentou que eu não pudesse mais comer trigo e leite. Eu não lamento nada. O ruim é ficar doente. Descobrir o que te ofende a saúde e excluir é uma maravilha”, revela adaptada.

Dimas descobriu que os problemas que tinha estavam relacionados a alergia quando a filha Bianca Maria, de 17 anos nasceu. “Ela deu muito trabalho. Chorava muito, não ganha peso e vivia com diarreia. As pessoas diziam a Márcia que o leite dela estava fraco e que tomasse muito leite de vaca. Isso piorava ainda mais a vida da minha filha e de todos nós”, revela o professor que também é pai de mais uma menina, que nunca apresentou alergia.

Casado com Márcia Lira Andriola, alérgica respiratória, ele desconfiou de sua própria condição quando percebeu que os sintomas da filha tinham diminuído com os cuidados adotados. “Os sintomas da Bianca eram muito parecidos com os meus. Até que fui a um médico em João Pessoa e ele fez o diagnóstico”.

Marcia conta que até descobrir o que Bianca tinha, percorreu um verdadeiro calvário. “Imagina a gente, há 17 anos, no interior da Paraíba, com aquele bebê que chorava, chorava, chorava, mamava, mamava, mamava, tinha diarreia que não melhorava e não ganhava peso? Eu tomava uns dois litros de leite de vaca por dia e isso só piorava a saúde da Bianca”, relembra.

Os três alérgicos alimentares: Dimas, Bianca e Mirtor

Até que um dia, quando a filha tinha oito meses, uma gastropediatra de João Pessoa desconfiou do leite de vaca. “Mudou nossa vida, mas ela achou que o diagnóstico fosse intolerância. Só com o tempo descobrimos o que continuava errado. Ela tinha era alergia. Meu pai também era alérgico e depois que ele morreu de câncer de intestino eu decidi que ia fundo para cuidar da minha filha. Fui aos poucos descobrindo o que ela não podia comer, reintroduzindo alimentos um a um. Fiz muita pesquisa na internet e estudei muito. Bianca era pequena, tinha baixo peso. No final dos dois primeiros meses de dieta certa ela engordou 10 quilos. Mas já tinha oito anos e ainda era muito frágil. De lá pra cá ela cresceu e vive saudável”, revela.

Atualmente Marcia mantém um cardápio duplicado em casa, com opções convencionais para ela e a filha Bruna e outras inclusivas pra Bianca e Dimas. Os dois não consomem leite de vaca e seus derivados, nem trigo. “O médico nos disse que prestássemos atenção ao comer porque nós mesmos íamos identificar outros alimentos que nos ofendem”, revela o pai que descobriu outros ingredientes que ficam fora das receitas culinárias.

Hoje Bianca come eventualmente alguns alimentos com leite sem maiores transtornos. “A gente percebe que a alergia ao leite curou, mas ela continua intolerante. Se exagerar passa mal”, explica a mãe.

“Quando eu era pequena e comecei a fazer a dieta certa nem sofria por não comer o que minha irmã comia. A dor que eu sentia antes era muito maior que qualquer vontade que eu pudesse ter. Fazendo dieta eu não me sentia mal”, revela.

Mirtor, 79 anos e Dimas, 59.

Mas Mirtor, Dimas e Bianca Maria não são os únicos da família que convivem com restrições alimentares e alergias. Além deles, uma outra filha de seu Zuca e D. Arlinda, dois de seus filhos e 3 de seus netos são alérgicos alimentares diagnosticados. “Às vezes vejo sintomas que parecem alergia. Eu converso, sugiro que investiguem. A vida melhora muito quando a gente descobre o que faz mal”, revela Mirtor.

Mas o que parece uma maldição na família Andriola Pereira, segundo os médicos é apenas um dos fatores que pode levar a alergia alimentar. Além da história genética, questões ambientais e o estilo de vida pode deflagrar as alergias alimentares. A gastropediatra Janaína Salgado de Oliveira explica que existe sim um componente genético envolvido no desenvolvimento da alergia alimentar, mas ele não é o único fator determinante para a mesma acontecer.

“O fator genético é importante, mas o fator externo também é muito importante. É uma junção de fatores. Atualmente muito se fala também da microbiota materna durante a gestação. Existem estudos que apontam que a gente tem comido muito mal, e isso é um dos fatores que tem contribuindo pra aumentar o número de pessoas alérgicas”, explica.

 

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista,
produtora de conteúdo e mãe de alérgicos!
E-mail: ribeironunesflavia@gmail.com

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