Entrevista: Sandra Matunoshita, da SOS Alergia

Por Bianca Kirschner

Criada em 2004, a SOS Alergia ( SOS alergia – Produtos para os Alérgicos ) vem alcançando seu objetivo de atender alérgicos alimentares dentro da sua missão de “proporcionar acolhimento, inclusão social e qualidade de vida aos alérgicos e seus familiares”. Isso não é pouco para um mercado que muitas vezes se prende somente ao lucro e às ações de marketing para a comunidade de alérgicos alimentares.

“Até hoje, essa missão somada aos nossos valores fundamentais norteiam todas as nossas ações sejam com clientes, colaboradores, fornecedores diversos e Sociedade de forma geral. Apesar de atuarmos também na prevenção de alergias respiratórias e de contato, temos um carinho muito especial pela alergia alimentar porque atinge o público que mais mexe com o nosso coração: as crianças”, diz Sandra Matunoshita, Sócia-fundadora da empresa.

Nesta entrevista exclusiva para o Conexão Alimentar, ela fala sobre atuação na área, inclusão nas escolas e meio social, e a força do alimento no dia a dia, nos grupos e para os sentidos:

“ O alimento tem poder de acolher ou excluir, assim como de criar ‘memórias afetivas’. Daí a importância de pensarmos nas características sensoriais aliadas às nutricionais todas as vezes que criamos algo.”

Leia a entrevista

Fale-nos um pouco dos propósitos atuais que norteiam o trabalho da SOS Alergia?

A SOS Alergia nasceu em junho de 2004 com a missão de “proporcionar acolhimento, inclusão social e qualidade de vida aos alérgicos e seus familiares”.

Até hoje, essa missão somada aos nossos valores fundamentais norteiam todas as nossas ações sejam com clientes, colaboradores, fornecedores diversos e Sociedade de forma geral.

Apesar de atuarmos também na prevenção de alergias respiratórias e de contato, temos um carinho muito especial pela alergia alimentar porque atinge o público que mais mexe com o nosso coração: as crianças.

Atualmente temos 10 franquias e em breve, em meio a essa pandemia, iremos inaugurar a SOS Alergia Recife. Todos os nossos franqueados são pais de crianças alérgicas e isso faz uma diferença enorme no cuidado, no carinho, no respeito e na empatia para com nossos clientes.

Quais as principais mudanças que você percebeu no mercado para produtos para alérgicos nos últimos 10 anos?

Quando fundamos a SOS Alergia, há quase 17 anos, poucos médicos falavam sobre a alergia alimentar, não existiam receitas disponíveis na internet e poucas eram as opções de produtos seguros para os alérgicos.

Apesar de ainda termos um longo caminho pela frente, eu posso afirmar que vivemos grandes conquistas, especialmente nestes últimos anos.

Hoje, graças ao avanço tecnológico e a RDC 26/15, resultado da união de muitos personagens em prol da rotulagem dos principais alérgenos alimentares, há grande disponibilidade de produtos “seguros” e a tendência é que isso continue a crescer.

Acredito que o mercado de produtos para quem sofre com restrições alimentares como é o caso dos alérgicos tende a crescer muito, pois é possível observar o aumento dos casos de distúrbios alimentares diversos tanto em crianças quanto em adultos. Porém, é importante que eu diga que empreender nesse ramo (focado num nicho de mercado) não é fácil e requer muito investimento, estudo, preparo, dedicação e resiliência.

Na sua opinião, o que ainda falta em relação aos produtos para alérgicos alimentares?

Pessoalmente, eu acho que ainda precisamos avançar muito no desenvolvimento de produtos similares aos “tradicionais” que permitam que as crianças não se sintam “diferentes”, “menores” ou “excluídas”.

Muitas cidades no Brasil não têm acesso a alimentos para alérgicos, inclusive esse é um dos motivos de atuarmos através das franquias.

O alimento tem poder de acolher ou excluir, assim como de criar “memórias afetivas”. Daí a importância de pensarmos nas características sensoriais aliadas às nutricionais todas as vezes que criamos algo.

Mais do que pensar no produto faz-se necessário pensar em quem irá consumi-lo.

A razão de existir de qualquer negócio não pode ser apenas o lucro e sim o alívio da dor do cliente.

Com sua experiência, o que você acha que falta em termos de conscientização das pessoas que não são alérgicas?

Este é outro ponto que, em minha opinião, melhorou muito, mas ainda tem muito a ser conquistado.

Sou da época em que crianças com alergia alimentar eram retiradas da sala de aula na hora do “parabéns”, muitas vezes sendo enviadas para a sala do diretor. Muitas delas também eram retiradas da lista de convidados de festas e de outros eventos sociais.

Hoje, é possível perceber que muitas escolas se preocupam com o acolhimento e a inclusão não somente das crianças alérgicas, mas também daquelas que sofrem com outras restrições alimentares.

Percebe-se também o aumento de pais de crianças sem alergia preocupados em incluir crianças alérgicas nas festas de seus filhos. É algo que sempre me emociona muito.
Para ampliar a conscientização das pessoas que não são alérgicas, nós precisamos unir forças com os pais de crianças alérgicas, profissionais da saúde, escolas, empresas do segmento e outros personagens para criar ações estratégicas. Não tenho dúvidas de que a Conexão Alimentar será de grande ajuda.

Agora, não posso deixar de falar que talvez a conscientização que mais falte é por parte de nossos governantes.

Na sua opinião, o que o poder público e as agências de saúde podem fazer em termos de regularização de produtos em relação às alergias?

Em 2014, foi aprovada a Lei Federal nº 12.982 que determina que em todo o Brasil as escolas públicas devem garantir uma alimentação adequada aos alunos com as mais diversas restrições alimentares, incluindo os alérgicos.

Porém, sabemos que ainda há muita falha na distribuição dos alimentos e quando oferecidos, nem sempre são observados os devidos cuidados de compra e preparo, gerando inclusive relatos de reações leves e graves. Algumas prefeituras ainda teimam em comprar leite sem lactose para oferecer às crianças alérgicas.

É preciso que o poder público olhe com atenção as crianças com restrições alimentares, fazendo valer o direito a uma alimentação saudável e segura. Faz-se necessário também que treinamentos sejam oferecidos às escolas não somente aos professores e cozinheiros, mas a todos os profissionais porque só assim conseguiremos criar ambientes empáticos e inclusivos.

Alergias e pandemia: como profissional, o que você pode destacar deste período em relação à necessidade de produtos especiais?

Ninguém estava preparado para enfrentar a pandemia da covid-19, nem adultos e muito menos crianças; mas a pandemia chegou sem pedir licença e foi deixando um rastro de destruição econômica, social e emocional.

Como eu disse anteriormente, o alimento tem o poder de incluir e excluir, bem como de gerar memórias afetivas. E foi pensando nisso que, em 2020, a SOS Alergia decidiu incentivar a criação de momentos inesquecíveis: avós e tios que, mesmo distantes, podiam expressar seu amor dando um ovo de páscoa (mudamos o tema “Amar é estar junto” para “Amar é estar juntos, mesmo que distantes”); um prato inclusivo que poderia ser saboreado por todos sem que mamãe precisasse cozinhar no Dia das Mães; um kit hamburguer para ser feito em família no Dia dos Pais; um bolo que poderia ser entregue com um recadinho para a vovó no Dia dos Avós; o churros que foi oferecido no Dia dos Irmãos relembrando que “os diferentes se completam” assim como acontece com a massa e o recheio; o Dia das Crianças em que oferecemos um kit de confeiteiro sob a temática “Brincar, se lambuzar e ser feliz!” e o Natal solidário em que a cada panetone adquirido outro foi doado “Espalhando amor com Doçura”.

Com esses exemplos, o que gostaria de dizer é que mais do que criar novos produtos para os alérgicos precisamos olhá-los com respeito, empatia e amor.

Um produto e uma empresa só “fazem sentido” quando “fazem sentido” na vida de seus clientes.

Acesse:
www.sosalergia.com.br

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