Dra. Glauce Hiromi Yonamine fala sobre alergias alimentares e saúde pública

Entrevista à Bianca Kirschner.

O Conexão Alimentar conversou com a Dra. Glauce Hiromi Yonamine.

Ela é nutricionista das Unidades de Alergia e Imunologia e Gastroenterologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (ICR) e doutoranda em Ciências pelo Departamento de Pediatria da FMUSP.

Na entrevista, Dra. Glauce esclareceu muitas dúvidas sobre o atendimento à alérgicos no sistema de saúde pública.

Acompanhe:

– Com sua experiência em saúde pública, como os pais sabem que é o momento de procurar um alergista?

Em geral, os pais iniciam o acompanhamento com o pediatra, que faz a suspeita de alergia alimentar. A necessidade de acompanhar com um alergista surge quando o caso é complexo e requer o acompanhamento do especialista; por exemplo, anafilaxia, dermatite atópica moderada e grave, esofagite eosinofílica e alergia a múltiplos alimentos.

– Quais os sintomas que levam os pais a procurarem alergistas no SUS?

Geralmente, são os sintomas imediatos e graves, isto é, quando o paciente ingere o alimento suspeito e apresenta reações até 2 horas após o consumo. Essas reações podem ser de pele (por exemplo, vermelhidão, inchaço, placas na pele), respiratórias (por exemplo, dificuldade para respirar, tosse, rouquidão), do trato gastrintestinal (por exemplo, vômitos e diarreia) e/ou circulatórias (por exemplo, palidez, queda de pressão, desmaio, choque).

– Quando devemos ir ao alergista ou devemos ir em gastro ou em nutricionista? Como diferenciar o tipo de tratamento?

Em geral, o alergista é o profissional indicado para os casos de reações imediatas, chamados de IgE mediados, ou casos de reações mistas, como a dermatite atópica.

O gastroenterologista é o profissional indicado para os casos de reações tardias, chamadas de não IgE mediados e que geralmente estão relacionadas com o trato gastrintestinal, como sangue e muco nas fezes, diarreia, cólicas, refluxo, vômitos.

Tanto alergistas como gastroenterologistas acompanham casos de esofagite eosinofílica (ocorre quando as células do sistema imunológico, chamadas de eosinófilos, se acumulam no revestimento do esôfago). Existe um tipo de manifestação clínica que é não IgE mediada, mas que pode apresentar sintomas imediatos, que também pode ser acompanhada pelos 2 especialistas; esse quadro é chamado de FPIES (food protein induced enterocolitis syndrome), onde ocorrem vômitos em jato, palidez e piora do estado geral da criança.

O nutricionista acompanha todos os casos de alergia alimentar, tanto do alergista como do gastroenterologista. Ele auxilia o paciente a aderir à dieta de eliminação, com a preocupação de prevenir deficiências nutricionais e garantir qualidade de vida.

– Qual o procedimento na busca de consulta para quem não tem plano de saúde? Aqui em SP e possivelmente em outras regiões do Brasil? O que o SUS oferece?

Todos têm direito de acesso a atendimento pelo SUS.

Em São Paulo, o atendimento se inicia pela Unidade Básica de Saúde (UBS). Quando necessário encaminhamento para atendimento especializado, o profissional da UBS encaminha o paciente por um sistema de regulação do atendimento chamado CROSS (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde). Com isso, o profissional da atenção primária encaminha o paciente para a atenção secundária ou terciária, de acordo com a disponibilidade de vagas ambulatoriais.

O Instituto da Criança do Hospital das Clínicas tem ambulatório especializado no atendimento de alergia alimentar, com ambulatório específico de gastroenterologista e de alergista e atendimento multiprofissional com nutricionista. O atendimento ambulatorial envolve anamnese detalhada do quadro clínico, exames para apoiar o diagnóstico dependendo dos casos e teste de provocação oral para diagnóstico. O paciente é acompanhado durante o tratamento para verificar adesão às orientações, evolução nutricional e reavaliação periódica de tolerância. Pacientes com alergia IgE mediada persistente (com menor chance de tolerância) também podem ser incluídos em protocolo de dessensibilização.

– O que normalmente é feito em consultas que preveem possível diagnóstico de alergia alimentar?

A consulta para diagnóstico de alergia alimentar sempre deve envolver uma avaliação detalhada da história clínica para avaliar se há reprodutibilidade dos sintomas e se esses sintomas são compatíveis com alergia alimentar.

Se o quadro clínico for de manifestação IgE mediada, exames laboratoriais de IgE específica podem ser solicitados para apoiar o diagnóstico.

Sempre que houver dúvidas, o paciente é submetido à dieta de eliminação por período limitado de tempo (geralmente entre 2 a 8 semanas), com programação de realização de teste de provocação oral após este período. A melhora dos sintomas com a retirada do alimento confirma a suspeita, mas diagnóstico só é confirmado pelo retorno dos sintomas com a reintrodução do alimento.

Bianca Kirschner,
mãe de Lucas e Felipe,
é criadora e diretora
da plataforma Conexão Alimentar

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