Depois de um filho alérgico alimentar você teve medo de ter outro?

Flávia, Joaquim, Pedro e Maria. Foto: Caroline Chalita

Quando eu era criança e pensava em um dia ter filhos, imaginava que teria três! Mas eu travei no segundo filho. Durante quatro anos e meio eu não podia pensar em ter outro bebê. O terceiro filho eu dizia que ficaria pra uma próxima vida. Eu tive muito medo da alergia alimentar e dos transtornos que ela ainda pudesse causar na minha vida.

Tiel sempre disse aos quatro ventos que ia ter seis filhos. Quando nós começamos a namorar ele passou a falar menos, talvez pra não me espantar! Mas depois que descobrimos que Joaquim e Pedro eram alérgicos severos, que enfrentamos milhares de noites sem dormir, socorrendo vômitos em jato, diarreia, assaduras assustadoras, incontáveis infecções por repetição travei e ele esperou. Depois que enfrentamos anafilaxias, tímpanos estourados e leite especial caríssimo eu dizia que não teríamos mais filhos, e ele concordava. Às vezes ele dizia que queria mais bebês, mas sempre que eu o olhava ele mudava o tom pra brincadeira.

Mas a verdade é que no verão de 2014 recebemos como presente uma gestação não planejada, mas que foi muito celebrada e cercada por cuidados. Eu lembro que no dia que desconfiei que estivesse grávida comprei um teste de farmácia e vi as duas marquinhas anunciando a chegada de um novo bebê. Olhava para o teste com um misto de pavor e alegria. Gratidão por Deus está me confiando mais uma pessoinha, mas muito medo do que eu precisaria viver com a nova chegada.

E Maria chegou cheia de encantos. Encheu a nossa casa de amor e deu sobrevida ao meu pai, que vivia muito doente. Nos levou para uma viagem delicada e feminina. Enquanto eu processava o novo milagre da vida que acontecia dentro de mim, Tiel contou para todos os amigos, pra todos os colegas de trabalho. Organizou um churrasco e chamou a nossa família pra comemorar. Ele realizou o sonho de ter mais um bebezinho e foi brindado com uma menina apaixonada por ele. Chegou na metade do que tinha planejado, mas está realizado.

Joaquim jura de pés juntos que ela só veio porque ele pediu muito a Deus. Ela adora dizer isso quando ele tenta resistir as suas vontades. “Esqueceu que você me pediu de presente?” Os meninos falavam que queriam um irmãozinho, mas no dia que tivemos certeza de que era uma irmã e contamos a eles, mudaram de ideia imediatamente: “Meninas são chatas, mas irmãs não!” E ela é muito cuidada por eles e corresponde com a maior admiração e amor. Nem parece que nasceu cinco anos depois de Joaquim e sete depois que Pedro. Está na vida deles como a peça que faltava ao tripé e que o dá estabilidade.

Não vou dizer a vocês que foi fácil. Teve muita renúncia, muitas madrugadas, muita dieta de exclusão, muito estresse na introdução alimentar, teve até crise Fpies, mas tudo o que vivemos com os meninos nos habilitou pra ajudar Maria a comer mais rápido, a ter uma qualidade de vida muito superior à deles pelo menos nos 3 primeiros anos de vida. E hoje a gente olha pra traz e não sabe como seria viver sem ela. Seríamos uma família capenga se não tivéssemos tido dela.

Tiel hoje fala que não tinha medo, apenas me respeitava porque somos um casal. Mas ele diz que estava preparado pra ter Maria, para ter qualquer outro filho. Ele vive empenhado em buscar valorizar a comida deles. É especialista em compras de alimentos inclusivos. E em restaurantes se inspira para as invenções que pratica aos fins de semana em casa. Ele conta que já teve vontade de chorar quando pensava que as crianças poderiam crescer e não fazer o que ele faz, ou fazia, comendo o que desse na telha. “Talvez eles cresçam e não possam se sentar em uma churrascaria e comer o que vier. Mas que valor tem isso? Eles vão poder fazer coisas muito mais importantes. Eu me empenho mesmo em buscar possibilidades gastronômicas para eles. Tanto quanto os cientistas que buscam a cura para as doenças eu busco comidas interessantes para eles”, finaliza.

Mateus, Felipe, Bianca e Lucas. Fotos: Mariana Arias

Mas esse medo não foi exclusividade minha. Muitos outros pais sentem coisas parecidas antes de decidirem ou serem brindados com outro filho, alérgico ou não. Cada família encontra sua forma de vencer seus desafios. Eu conversei com gente que sente medo, mas ninguém arrependido por ter aceito o desafio e o risco de mais um alérgico na família.

Um filho brasileiro – A Bianca Kischner, fundadora do Conexão Alimentar, mãe do Lucas e do Felipe, me contou que pensou e pensou sobre uma nova gestação. Além da alergia alimentar do primogênito, ela e o Mateus, marido dela, tinham decidido ser cidadãos do mundo e já moravam fora do Brasil quando o primeiro filho chegou. Eles não tinham parentes perto e a rede de apoio não era numerosa.

Um dia, numa conversa, ela me contou que depois de muito amadurecer a ideia durante cinco anos, disse ao marido que estava pronta e no mês seguinte descobriram a novidade divina. Teriam mais um filho. “Concluímos que seria uma boa companhia pro Lucas e que já tínhamos aprendido muito e conseguiríamos cuidar de mais um alérgico”, revela.

O Fe não é alérgico, mas depois dele, os dois decidiram ter um filho brasileiro. O Conexão Alimentar nasceu em 2019, com a família morando no Brasil. E esse filho também exige cuidados, mas tem como objetivo conectar alérgicos e suas famílias. Talvez o casal, acostumado a viver sem apoio familiar, tenha buscado neste projeto uma maneira altruísta de arrumar companhia e ao mesmo tempo devolver ao universo tudo o que aprendeu na jornada.

Foto: Josi com Elisa no colo e Jessé com Ester

“Chorei de desespero” – A social media Josi Gama revela que está se adaptando a descobertas de novas alergias de suas filhas Ester e Elisa, de três e seis anos. Em uma consulta recente, várias alergias novas foram diagnosticadas. Quando teve a segunda filha ela tomou uma decisão que muitas outras mulheres tomam.

“Eu liguei as trompas com medo de ter o terceiro filho alérgico. E também porque eu tive duas gestações de risco. Entrei em trabalho de parto com cinco meses nas duas gestações. Nossa, a gente tem muito medo do segundo filho. Eu chorei de desespero nos três primeiros meses de gestação. Ficava com medo de sofrer tudo que tinha sofrido. Eu me sentia muito culpada pelas alergias dela, porque sou alérgica. Quase morri com crises de bronquite. Só passou quando parei de comer coisas com leite. Como meus pais iam saber disso no interior da Paraíba há mais de 30 anos. Tive uma irmã que morreu desidratada. Minha mãe dava leite para ela e a diarreia piorava. Eu tive muito medo sim. Mas eu sou feliz! Apesar de todas as restrições, minhas filhas são saudáveis”, explica a mãe em busca de novas receitas para adaptar, diversificar e tornar mais atraente o cardápio das filhas.

Patrícia: terceiro filho à vista.

“Me senti largando a luta” – A professora Patrícia Azeredo acabou de descobrir que está grávida do terceiro filho. Está vivendo as angústias da possibilidade de ter mais um rebento alérgico alimentar.

“O Mathias é meu primeiro filho, tem 6 anos e intolerância à lactose leve. Aí eu tive a Alice que está com 1 ano e 8 meses. Ela tem alergia à proteína do leite e ao ovo. Recebi o diagnóstico aos três ou quatro meses. Ela reagia via leite materno.

Fizemos 1 ano e meio de dieta totalmente restritiva e hoje já estamos na introdução de derivados de leite de vaca. No meio desse processo eu descobri uma nova gravidez totalmente inesperada, sempre tive medo de um terceiro filho vir com a alergia de Alice ou até pior, baseado na diferença dela pro irmão mais velho. Eu ainda estava amamentando. O médico não me permitiu continuar com a dieta restritiva então eu tive que parar. Me senti abandonando-a. Me senti largando a luta dela. Sofri bastante com isso. Confesso que me assusta a possibilidade de o bebê vir alérgico. E sei que tem uma grande possibilidade. Mas também sei que se for, será uma situação que estou relativamente acostumada a lidar”, relata.

E você, conhece alguém que teve mais de um filho alérgico? Conhece alguém que teve medo e depois percebeu que poderia vencer o desafio? Conta pra gente! Como uma mãe de alérgicos que teve medo eu diria a todas e todos que estão adiando o sonho de terem outro filho: vale a pena enfrentar, vale a pena estudar, entender e buscar as melhores soluções. A alergia é só uma condição de vida e ela não deve ser um fator limitante. Ela não pode mandar no planejamento familiar de ninguém. Pense se o que te amedronta é a alergia ou a falta de informação e o consequente desconhecimento de saber como agir. Coragem! O mundo precisa de informação e diversidade respeitada.

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista,
produtora de conteúdo e mãe de alérgicos!
E-mail: ribeironunesflavia@gmail.com

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