Cuidando da relação fraterna, um olhar para o irmão do alérgico

Érika Campos Gomes

A gestão de alergia alimentar em crianças é uma experiência estressante para toda a família, em especial para os irmãos.

Precisamos olhar também para o irmão do alérgico e entender como ele pode se sentir nesse momento.

Existem algumas particularidades dessas crianças.

Elas tendem a ficar aflitas com a condição do irmão e, ao mesmo tempo, têm compreensão limitada da situação, sendo que podem apresentar dificuldades em entender por que o irmão não pode fazer algo ou necessita de atenção especial dos pais.

Geralmente, não possuem informações adequadas, preocupam-se, são orientadas e levadas a cuidar do irmão e não têm com quem conversar sobre sua raiva e culpa por serem “normais”.

Podem se sentir culpadas pela raiva ou ciúmes que têm do irmão alérgico. A agressividade, portanto, que é natural da convivência entre irmãos, pode ser impedida de se manifestar para não ferir o que apresenta alergia.

O sofrimento dos irmãos das crianças adoecidas, na maioria das vezes, é invisível. Com isso, eles podem desenvolver suas próprias fraquezas na forma de problemas comportamentais como forma de fazer com que seus pais percebam suas dificuldades.

Que cuidados que os pais podem ter para ajudar e estar ao lado do filho que não apresenta alergia?

Essa pergunta requer várias reflexões.

É fundamental uma boa comunicação com os filhos que não apresentam alergia alimentar para que estes a compreendam! Assim poderão ficar menos ansiosos com os cuidados necessários e com as possíveis reações.

Além disso, busque sempre estar atento ao filho não alérgico. É claro que muitas vezes a demanda da alergia pode desviar a atenção, mas é necessário um olhar cuidadoso com o não alérgico para que não se sinta sozinho e preterido.

Acima de tudo, aceite e estimule-o a falar sobre seus sentimentos de raiva e ciúmes em relação ao irmão que apresenta alergia alimentar. Dessa forma, ele poderá manifestar suas insatisfações, tristezas e se sentirá reconhecido.

Mantenha o cuidado de alternar atividades, cuidados e carinhos com um filho e o outro de forma que não seja estabelecida uma preferência que pode gerar uma rivalidade entre os irmãos.

Conflitos e estratégias

Aos pais, cabe a tarefa de intermediar os conflitos e as diferentes situações que surgem entre os filhos. Suas atitudes e intervenções poderão influenciar positiva ou negativamente a construção do relacionamento entre os irmãos.

No caso de famílias com crianças alérgicas, há o surgimento de inúmeras situações específicas na rotina diária que podem gerar dificuldades entre os filhos, o que proporciona maiores desafios à parentalidade.

Questões como:

– O que fazer quando um filho quer um alimento que o outro não pode?
– O que fazer quando um dos filhos pode fazer um passeio e o outro não?
– Vamos fazer a mesma dieta que o filho alérgico, mas e o que não tem alergia ou não tem a mesma alergia, como fica?

São muitas as situações que os pais precisam criar estratégias para solucionar.

A pesquisa que realizei no mestrado teve como um de seus objetivos verificar as estratégias que as mães utilizam para tentar resolver os dilemas entre os filhos que envolvam a alergia alimentar.

Privação e negociação

Foi observado que as principais estratégias utilizadas por elas envolviam a privação e a negociação. Mas o que isso significa?

A privação relaciona-se com o fato de as mães optarem por não irem a lugares ou não oferecerem o alimento quando um dos filhos quer e o outro não pode.

Dentre as variadas formas de privação, podemos destacar: negar o alimento proibido, a prática de comer escondido, comer o alimento alergênico somente fora de casa, exclusão dos alimentos alergênicos do ambiente familiar e proibição de ir a lugares aos quais o irmão alérgico não possa ir.

Essa estratégia pareceu ser bastante utilizada e a que surge mais rapidamente como possibilidade de resolução das situações entre os filhos.

As estratégias maternas para lidar com possíveis conflitos que possam surgir entre filhos quando pelo menos um deles tiver alergia alimentar podem envolver, além da privação, a negociação.

A primeira forma encontrada de negociação é a troca do alimento proibido por outro alimento ou atividade!

Essa forma de negociação foi bastante citada pelas mães na pesquisa. A proposta é a substituição de um alimento proibido ou passeio inseguro desejado pelo irmão não alérgico, quando próximo do alérgico, por outros alimentos e atividades seguras que os dois filhos gostem e possam realizar conjuntamente.

Há situações e conflitos entre os irmãos que demandam das mães maior cuidado, empenho e criatividade nas propostas de soluções. Diante disso, as estratégias de negociação estabelecidas pelas mães podem ser as mais diversas e criativas.

Normalmente, essa forma de negociação mais criativa e diferente surge a partir de reflexões e são mais analisadas de acordo com o contexto com a família. Não é a primeira solução que vem à mente das mães.

Alguns dos exemplos destas formas mais criativas:

– Estabelecimento de rotinas alimentares na tentativa de contemplar os desejos dos filhos e de toda a família;

– Reflexões empáticas;

– Reuniões familiares para discussões da situação;

– Conversas;

– Alternância na forma de realizar atividades diárias para atender às demandas de cada filho.

Essa forma de negociação nos mostra que as mães precisam buscar constantemente uma reflexão sobre a situação vivenciada, as necessidades de cada filho, as possibilidades reais de solução e sobre as maneiras anteriormente impensáveis, mas que podem se tornar boas saídas para os conflitos.

E você? Utiliza a negociação?

Use a criatividade para tentar solucionar de maneira mais justa e harmônica as situações.

Érika Campos Gomes
Doutoranda e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Graduada em Psicologia pela PUC-MG em 2001.

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