Aniversários são datas especiais, comemore!!!!

O “bolo” de melancia

Flávia Ribeiro

Eu sou daquelas pessoas que acredita que celebrações de aniversário são necessárias para agradecer pela vida. Vida de filho já é mais que motivo, alérgico que passa por um monte de risco então, nem se fala! Mas se seu filho ou sua família inteira é alérgica, para celebrar você precisa ter a mente aberta e não ligar para convenções. Sabe aquela história de pensar fora da caixinha? É isso!

Mas eu quero dizer, principalmente aos pais que estão esperando a alergia curar pra fazer aquela festa, com brigadeiro e tudo o que se pode imaginar, que façam a festa agora, com o que puder comer. O momento é agora. Depois, só Deus sabe.

Afinal a festa é para comer ou para festejar com a família e os amigos? Faça do cardápio do seu filho o cardápio da festa. Faça os alimentos que fazem mais sucesso com o seu filho e além de comida sirva amor e empatia.

Faça como der pra fazer, onde der pra ser, mas acenda uma vela de aniversário linda e cante o melhor parabéns para agradecer. Ah, e faça muitas fotos, esses momentos são únicos e devem ser registrados. E só nas fotos você vai conseguir ver o brilho mágico nos olhos do seu filho.

Os “parabéns” de todos os tipos

Nós já cantamos parabéns com um bolo que era um empilhamento de potinhos de fruta picada! Já cantamos com duas melancias esculpidas e por aí foi, até chegar no bolo fofo com cobertura que temos oportunidade atualmente.

O primeiro aninho de Pedro, quando não sabíamos que a alergia alimentar era nossa companheira e que criaria nossos filhos conosco, fizemos uma festinha familiar com tudo o que tradicionalmente se espera de um aniversário de criança.

Quando ele fez dois aninhos e Joaquim tinha nascido seis dias antes, fizemos uma festinha antecipada na escola, livre de leite e soja. Naquele tempo a gente achava que só esses dois alimentos eram proibidos. Em casa cantamos parabéns com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, sem leite.

No ano seguinte passamos a juntar as celebrações. As festinhas são conjuntas desde então, mas no dia de cada um eles recebem atenção especial. Escolhem o cardápio do almoço e do jantar, o sabor do bolo. Olha que luxo para quem um dia nem bolo teve!!!

O primeiro aninho de Joaquim e o terceiro de Pedro foram comemorados com o que Pedro podia. Joaquim ainda não comia. Ele vivia de uma fórmula de especial extensamente hidrolisada. Estava completando um ano com muita esperteza, andando, falando e até brincando no pula-pula, mas com muita dificuldade de ganhar peso e duas otites que perfuraram seus tímpanos.

Mas como Pedro comia, Joaquim era bebê e o aniversário deles é no inverno, fizemos canja de galinha caipira pra todos. Até os primos que não comiam canja comeram! Fizemos geleia de goiaba, que Tiel deu a Joaquim e ele não passou mal. Fizemos espetinhos de frango, suco natural e outras comidinhas possíveis. A família e os amigos próximos saíram abastecidos, mas ainda tinha cara de aniversário tradicional.

No ano seguinte voltamos à escola e preparamos um lanche para os amiguinhos, todos muito acostumados com o cardápio de sucos e biscoito de arroz. A goiabada foi onde colocamos as velas e cantamos parabéns.

Velinhas nos potinhos de frutas

Festa “de verdade”

Mas naquele ano, Pedro com 4 anos, queria uma festa como a dos amigos. Ficou feliz com o lanche da escola, mas ainda faltava algo. Eu fiquei pensando em como resolver aquele impasse porque a gente não tinha como ir para um salão de festas infantis. Os espaços fechados nunca foram nossos companheiros e ainda tinha o fato dos salões não estarem preparados para cardápios inclusivos.

E foi assim que eu e Tiel resolvemos fazer o aniversário no clube onde a gente ia muito e eles eram apaixonados. Sempre gostamos de churrasco e sempre fizemos da carne que estivesse disponível. Então chamamos toda a nossa família e nos reunimos num dia de muita chuva, muita alegria e muita comilança para celebrar os cinco anos de Pedro e os três de Joaquim.

Eles gostaram muito, se sujaram na lama que se formou do lado de fora, brincaram muito e nós fizemos churrasco, tapioca, suco e comemoramos a vida daqueles dois menininhos que tanto nos preocuparam, que tantas reações tiveram, que comiam aproximadamente 25 alimentos.

Praça pra gente feliz

Praça com as crianças brincando e cantando com a equipe de Katiana.

Mas foi quando eles iam fazer seis e quatro anos que tivemos a maior ousadia e fizemos o nosso primeiro piquenique numa praça pública. Foram centenas de garrafinhas de suco de fruta, caldo de cana, potinhos de fruta picada e um bolo de isopor decorado com os dinossauros que eram os melhores personagens daquela época pra eles.

Mas a grande atração daquela festa foi a parceria que fiz com a minha amiga Katiana Rodrigues, jornalista como eu, mas antes de tudo uma artista multifacetada que tem uma empresa de animação cultural de festas infantis. Como é minha amiga, ela sabia do que os meninos gostavam, e as cirandas musicais foram a grande atração, além das atividades que resgatavam as brincadeiras tradicionais da infância.

A presença dela e sua equipe encheu todas as crianças de alegria e principalmente os meus meninos.

“Inicialmente não tínhamos a dimensão da complexidade das alergias das crianças. Desde então tomamos o cuidado de sempre estarmos alinhados com as demandas das crianças no sentido de estarem protegidas e seguras. Do repertório musical não foi necessário haver mudanças. Mas as brincadeiras que envolviam artes plásticas exigiam o cuidado de adequarmos os materiais a serem utilizados. O olhar do cuidado com o outro, sempre! Quanto mais aprendemos, mais seguras estarão nossas crianças e muitos adultos que acabam desenvolvendo as alergias, como aconteceu comigo, que tenho alergia respiratória”, explica Katiana.

Na segunda feira seguinte a festa piquenique os pais dos amiguinhos me questionaram na porta da escola sobre quanto tinha custado aquela produção, quem tinha feito tantas garrafinhas de suco e potinhos de fruta e etc. Os amigos queriam uma festa igual, mas os pais achavam que dava muito trabalho. E dá mesmo! Sempre deu muito trabalho. Mas eu nunca tive medo de trabalho. A alegria deles é sempre o melhor pagamento. Eles me diziam que queriam algo mais prático e então a opção do piquenique na praça não atendia as necessidades deles, mas estava no sonho dos filhos.

Experiências ilimitadas

“Bolo” de potinhos de frutas

No ano seguinte fizemos mais ou menos o mesmo em outro parque, mas desta vez tínhamos amigos da nova escola, novas mães e pais e eu, Maria dentro da barriga. Mais uma vez foi uma surpresa e uma alegria passar aquela tarde entre árvores, amigos, família e brincadeiras de criança.

Depois ainda fizemos um outro piquenique no jardim de uma casa cultural, num paintball e um jantar na nossa casa, juntando também o aniversário de Tiel que é perto do dos meninos. Até que mudamos pro Rio. Primeiro fizemos festinha na escola, viajamos como presente, mas por escolha e não por não sabermos como fazer festinhas inclusivas.

“Chegar numa festa ao ar livre num jardim….muitas cores …brincadeiras…festa de criança…. Foi a primeira surpresa! O bolo era uma melancia!!!!! Fiquei pasma! Ao mesmo tempo encantada! Sabia da alergia alimentar porém não tinha muito conhecimento. Os comes e bebes! Ahhh ! Caldo de cana, suco, rapadura, mariola. Foi surpreendente. E o mais bacana? Joaquim e Pedro estavam radiantes. Muitos amigos. Eu me deparei com um universo novo. Num aniversário do Benício eu fiz uma balada e organizei com cuidado a inclusão deles. E eles se divertiram!”, diz Juliana Barreto, que se tornou minha amiga e é mãe de um amigo de Joaquim.

Nunca deixamos de fazer a comemoração que eles sonhavam por não podermos servir brigadeiros e afins. A alergia nunca foi fator limitante para nós e não será nas festas de aniversário também. Nós não estamos esperando nada pra viver da melhor maneira que pudermos, sendo gratos a vida e felizes em termos família e amigos que sempre atendem aos nossos convites.

Flávia Ribeiro Nunes Pizelli, jornalista,
produtora de conteúdo e mãe de alérgicos!
E-mail: ribeironunesflavia@gmail.com

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