Alergia alimentar não é frescura e isso tem que ser falado no dia a dia, diz o pai Emanoel Ferreira.

Emanoel e Bento

Emanoel Ferreira
https://www.instagram.com/paiaplv/

Meu nome é Emanoel Ferreira, casado com Fernanda Calado, pai de Maria Clara (17 anos não alérgica) e do José Bento (4 anos, APLV extremo de contato e ingestão). Somos de Itajubá, MG.

Já tinha ouvido falar apenas em intolerância a lactose e achava uma frescura (risos); de alergias a alimentos nunca tinha escutado. Talvez até posso ter ouvido sobre alergias alimentares mas nunca tive uma escuta ativa a este assunto; ignorância mesmo. Infelizmente, temos que passar pelas dificuldades para ficarmos atentos a certos assuntos.

Bento, desde que nasceu, sofria de cólicas horrendas e muitas dores de ouvido, sempre tratávamos de inflamação ou otite.

Nunca nos atentamos ao fato que poderia ser o organismo dele avisando que algo estava errado. Ele se alimentava apenas de leite materno, mas como moramos no sul de Minas Gerais, consumir leite e seus derivados faz parte de todas as refeições todos os dias.

Aos 3 meses de idade, minha esposa estava fora e o leite materno que havia deixado acabou e como um bom mineiro amante de leite resolvi dar um pouco na “chuquinha”. Como não estava acostumado com o bico da “chuquinha”, acabou rejeitando e ao invés de engolir acabou escorrendo no queixo dele e imediatamente marcou onde o leite escorreu.

Liguei para minha esposa que imediatamente voltou e a partir dali vimos que algo estava acontecendo. Infelizmente, a pediatra não foi precisa e como ele mamava apenas no peito pediu apenas que diminuíssemos o leite na dieta da minha esposa.

Poucos dias depois, minha cunhada estava passeando em casa e sua filha (da mesma idade de Bento) estava mamando o leite de fórmula (leite ninho) e eu fiz algo muito errado: achei que Bento iria ficar com vontade e pedi que deixassem ele experimentar. Foi como uma bomba: após a primeira golada, vômito em jato, coriza espessa, corpo inchado e fechamento da glote. Imediato. Como um passe de mágica. Bum! Uma correria até o P.S. da minha cidade aos gritos e muito choro.

Eu sou muito prático, muito mesmo. Depois desse primeiro caso grave de Bento, no outro dia procurei um especialista a 70 km da minha cidade (Pouso Alegre) e após a consulta, ainda em choque, choramos muito, foram 70 km de retorno de muito choro e luto.

Chegamos em casa com todas as informações médicas, me debrucei em livros, internet. Minha esposa, que é enfermeira, fez alguns contatos e baixou algumas informações da internet também. Digerimos o máximo de informações que podíamos. Depois, pegamos caixas de compras e saímos pelos cômodos da casa colocando tudo que tinha proteína dentro dela. Fizemos a limpa. Desde forno, geladeira, microondas, potes, cosméticos, etc…. Doamos para algumas pessoas. Parecíamos malucos (eu mais que ela, sempre!). Fizemos uma lista de compras e no outro dia compramos tudo. Na nossa casa, a partir daquela data (começo de 2016), nunca mais entraria nada que pudesse conter ou compartilhar a proteína do leite. Fomos radicais? Sim. Mas foi preciso naquele momento.

Se eu falar que é fácil encarar o diagnóstico, eu estaria mentindo. É muito difícil, visto que temos uma filha adolescente (super parceira, entendeu a alergia e nos ajudou desde o começo).

Mas conhecemos o nosso filho primeiro, antes da alergia. Nossos filhos são as nossas bênçãos. Para mim em especial, tive uma educação das “antigas”, tudo em família, todos se ajudando, desde limpar a casa, cuidar, ajudar; tive uma base familiar muito severa e muito humilde, mas que me fortaleceu para conquistar tudo que nós conquistamos hoje.

Brinco com minha esposa que a única coisa que não fiz pelos meus filhos foi “dar de mamar no peito”, porque o resto sempre fiz. Minha esposa é enfermeira e é normal ela estar em plantões em horários malucos, logo esta responsabilidade dos filhos sempre foi compartilhada comigo. E eu cuido muito bem, diga-se de passagem, tanto da filha quanto do filho, sou daqueles que queria criá-los numa caixinha, mas sei que não posso (mas a vontade é grande – risos).

Gostaria de ter compreendido desde o primeiro momento que a alergia não é frescura e que tem que ser falado dia a dia para que chegue em outras famílias, tendo alergia ou não.

Com relação ao nosso diagnóstico, visto que Bento é extremo, não tivemos problemas pois infelizmente evolui para o edema da glote imediato (andamos com adrenalina).

Acredito que o princípio de tudo seria falar tanto sobre alergias alimentares ao ponto de ficar cravado na mente das pessoas que não podemos dar um docinho, um pirulito, uma colherinha, passar a mão, beijar, dar um pouquinho escondido sem os pais verem, não ligarem ao ponto de aplicar uma vacina que apesar de ser para alérgico não é para todos os tipos de alergia; enfim, passamos por cada coisa com nosso filho ao ponto de falarem que ele não seria “homem” quando crescer de tão “fresco” que é, pois não pode tocar nele, beijar.

Já escutamos cada coisa que nos fortaleceu tanto que entendi que para curar meu filho tenho que ajudar a curar outras crianças. Tenho que ser a voz das mães que escutam dos maridos que não podem ajudar pois trabalha, que escuta da escola que é só separar o lanche.

Isso me deixava tão irritado que comecei a dar a voz na minha página com uma cara diferente. Não desmerecendo o papel da mãe ( pelo contrário), queria mostrar aos homens que o pai pode e deve ajudar e isso não é um favor. É uma obrigação!

Eu a a alergia somos inimigos, sabe (risos), mas hoje estamos mais maduros. Bento ainda reage, mas desenvolvemos muitas estratégias para combater.

Fazemos adaptações em escolas e lugares onde ele frequenta, conseguimos uma autorização na minha cidade para toda criança alérgica poder tomar a vacina em pronto atendimento se indicada pelo alergologista (poderia ter feito isso somente para Bento, mas não seria a mesma coisa), damos palestras em fóruns, atendemos pelo zap e Instagram, vou nas rádios, tvs, jornais.

Vivo ainda como inimigo da alergia, mas com estratégias para combatê-la. Somos gratos pelo crescimento que tivemos após a APLV e o quanto podemos ajudar outras famílias. Agradecemos a Deus por Bento ser somente APLV extremo e que bom que ele não está no leito de uma UTI ou aguardando na fila para um transplante ou com câncer terminal. Cremos na cura de Bento. Amém!

Emanoel Ferreira
https://www.instagram.com/paiaplv/

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