Uma discussão sobre o atendimento à anafilaxia durante voos comerciais ganhou força nos Estados Unidos nas últimas semanas e está mobilizando organizações de pacientes e pessoas que convivem com alergias alimentares.
A Federal Aviation Administration (FAA), agência responsável pela aviação civil norte-americana, apresentou uma proposta para modernizar as regras dos kits médicos de emergência disponíveis nos aviões comerciais.
Pela proposta, as companhias aéreas deverão estar preparadas para responder a nove tipos de emergências potencialmente fatais, entre elas a anafilaxia, uma reação alérgica grave que pode evoluir rapidamente e exige tratamento imediato.
Mas um ponto da proposta está provocando preocupação entre organizações ligadas às alergias alimentares.
Em vez de determinar exatamente quais medicamentos e dispositivos devem estar disponíveis a bordo, a FAA propõe um modelo mais flexível, baseado na capacidade das companhias aéreas de responder a cada tipo de emergência.
Na prática, organizações de pacientes alertam que isso poderia permitir que uma companhia continue atendendo à exigência utilizando adrenalina em ampola e seringa, sem necessariamente disponibilizar formas modernas e mais simples de administrar o medicamento, como autoinjetores ou adrenalina nasal.
E essa diferença pode ser especialmente importante dentro de um avião.
Uma ampola exige preparo do medicamento, conhecimento sobre a dose e utilização de seringa e agulha. Já os dispositivos de fácil aplicação foram desenvolvidos justamente para permitir que a adrenalina seja administrada rapidamente em uma situação na qual cada minuto importa.

A sociedade está sendo chamada para participar
A proposta da FAA ainda não é uma regra definitiva.
A agência abriu uma consulta pública, disponível até 5 de outubro de 2026, permitindo que cidadãos, profissionais e organizações apresentem comentários antes da definição da regra final.
Organizações que atuam na defesa das pessoas com alergias estão mobilizando a comunidade para participar da consulta e defender que os aviões comerciais sejam obrigados a transportar formas modernas e de fácil utilização de adrenalina.
A discussão não começou agora. Segundo a Asthma and Allergy Foundation of America (AAFA), a organização defende desde 2018 a inclusão de sistemas modernos de administração de epinefrina nos kits médicos das companhias aéreas.
O argumento central é simples: em uma anafilaxia, não basta ter adrenalina disponível. É preciso conseguir administrá-la corretamente e rapidamente.
E no Brasil?
Enquanto os Estados Unidos discutem qual forma de adrenalina deveria estar disponível dentro dos aviões, uma pergunta inevitavelmente surge para quem convive com alergias alimentares no Brasil:
O que acontece se um passageiro tiver uma anafilaxia durante um voo brasileiro?

Para uma pessoa com risco de anafilaxia, viajar de avião envolve uma série de cuidados: levar os próprios medicamentos, avaliar os riscos relacionados aos alimentos servidos a bordo, comunicar suas necessidades à companhia aérea e estar preparada para agir caso uma reação aconteça durante o voo.
Existe ainda uma diferença importante entre os dois países: o acesso aos autoinjetores de adrenalina continua sendo um grande desafio no Brasil.
Isso torna a discussão norte-americana especialmente relevante para nós.
Ela coloca em pauta não apenas a presença da adrenalina dentro de um avião, mas outras questões igualmente importantes: qual apresentação do medicamento está disponível, quem pode administrá-lo, qual treinamento a tripulação recebe e quão rapidamente o tratamento pode chegar a um passageiro em anafilaxia.
Uma pergunta que vale atravessar fronteiras
A mobilização que acontece agora nos Estados Unidos levanta uma questão que também precisamos fazer no Brasil:
Em caso de anafilaxia durante um voo, passageiros e tripulação têm acesso rápido à adrenalina e a uma forma segura e simples de administrá-la?
Mais do que acompanhar uma mudança na regulamentação norte-americana, o debate abre espaço para uma discussão mais ampla sobre quais deveriam ser os padrões mínimos de segurança para passageiros com alergias alimentares, independentemente do país ou da companhia aérea.
E é justamente essa pergunta que o Conexão Alimentar vai investigar.
O que ANAC, Anvisa e as principais companhias aéreas brasileiras exigem e mantêm atualmente nos kits de emergência? Existe adrenalina a bordo? Em qual apresentação? E, diante de uma anafilaxia, quem pode administrá-la?
Essa resposta fica para a nossa próxima pauta.





